Como é ficar tanto tempo sem casa, só com o que cabe na mochila?

Tenho um quarto que nem sempre é só meu, mas não me importo em dividi-lo. E ele esta sempre diferente, ora com uma cama de solteiro, ora com vários beliches, para não enjoar. A decoração também sempre muda: a cortina, os quadros na parede e a mesinha nunca permanecem no mesmo lugar.

A vista da janela, que engraçado, está sempre mudando, tem horas que vejo uma praia, depois tem um templo, outra hora eu me espanto e só vejo prédios e derepente, quando eu volto só vejo montanhas.

Tem vezes que o quarto nem é meu, mas o dono faz com que eu me sinta como se estivesse em casa, então pronto, o quarto agora é meu também.

Meu guarda-roupa eu carrego nas costas, ele não tem prateleiras, gavetas ou cabides. Mas tem todas as roupas que eu preciso, um chinelo e um tênis. Basta.

As coisas mais importantes de uma estante estão comigo: livros, computador, caderninho de anotações e uma caneta. Porta retrato? Não preciso, penduro na memória a imagem do lugar e das pessoas que gosto.

Agenda também não se faz necessária. Vou resolvendo os compromissos a medida que eles surgem, não tem nada estabelecido, a ordem do dia é ditada de manhã ou na noite anterior.

Tenho sempre cama e lençóis limpos e carrego comigo uma toalha que enxuga muito bem, seca muito rápido, não pesa e nem ocupa espaço.

Tenho uma máquina fotográfica que se encarrega de congelar e eternizar as cenas que tenho visto. As imagens capturadas por ela ajudam a dar forma nas histórias que conto e vão me fazer viajar quantas vezes eu quiser depois que eu voltar.

Tenho sempre um banheiro, seja ele perto do quarto ou em algum lugar pelo caminho. Ultimamente muitos dos meus banheiros nem tem vaso, só um buraco no chão, mas faz o mesmo efeito. O que poderia estar na prateleira, levo em uma pequena bolsa: escova, pasta, sabonete e desodorante.

Não uso relógio, hora de comer é quando da fome, de dormir é quando não aguento mais de sono, hora de ir embora é quando estou cansado e hora de sair é quando termino de trocar de roupa. Se não tem viagem marcada, hora de acordar é quando o corpo acha que descansou o suficiente.

A sala de estar eu troco sempre. Umas tem televisão que eu nunca assisto, outras tem sofás que sentam pessoas que eu não conheço. Taí uma boa oportunidade de fazer novas amizades e trocar ideias.

As vezes tenho estante na sala com outros livros, revistas e jogos que nem sei jogar…Mas, normalmente, na sala de casa sinto uma atmosfera vibrante, cruzo com pessoas sentadas no mesmo barco que eu e estão remando para lugares aonde já fui ou por onde estou indo.

Tenho usado bem pouco a cozinha, tenho sempre quem cozinhe para mim. Não preciso de fogão, panelas ou liquidificador. O menu é sempre diferente. Escolho o que me apetece e o que a curiosidade pede.

As mesas e as cadeiras estão sempre dispostas de forma diferente no café, no almoço e no jantar. Não tenho aquele monte de coisa amontoada na gaveta ou no armário. Uso emprestado o que preciso: os pratos, o copo e os talheres.

Sem dúvida, a parte da minha casa que eu mais gosto é do quintal. Ele também sempre muda cada vez que passo pela porta. Na verdade, acho que não é uma porta, é um portal mágico. Lá nem sempre as pessoas falam a mesma língua ou tem a mesma religião. Os rostos mudam, assim como a moeda que elas usam para compras coisas tão diferentes.

Texto adaptado de Fred Mourão, em “Como planejar a sua viagem de mochila” – Editora Scortecci, 2012.

Para enviar seu comentário, preencha os campos abaixo:

Deixe uma resposta

*

Seja o primeiro a comentar!